Tem uma coisa que todo assessor de imprensa aprende cedo, quase sempre da maneira mais dura: o trabalho começa muito antes do lançamento e termina muito depois do resultado. E o resultado, aliás, não é a parte mais importante.
Existe um equívoco comum, e quem trabalha na área conhece bem, de que assessoria é uma questão de agenda. De ter o contato certo, o e-mail certo, o número certo. Como se tudo coubesse num arquivo bem organizado que qualquer pessoa poderia comprar por um preço justo. Tem gente que chega pedindo exatamente isso: “me passa seus contatos, eu te pago.” Anos de relações construídas, de não após não, de mensagens enviadas às três da manhã verificando se o nome da banda estava escrito certo, e a pessoa acha que aquilo cabe num arquivo de Excel.
O que cabe, na verdade, é uma história de confiança construída devagar, visita por visita, e-mail por e-mail, silêncio por silêncio. O assessor é o elo, e essa palavra, elo, importa de verdade: entre o artista e o jornalista. Não é o intermediário burocrático que repassa informação de um lado para o outro. É quem pega o material bruto, às vezes cru, cheio de entusiasmo e auto-elogio, e transforma numa linguagem que o jornalista consegue usar. É quem sabe que fulano da revista tal só escreve sobre post-punk dos anos oitenta e que mandar o disco errado pra ele é queimar uma ponte sem motivo nenhum.Conhecimento assim não se baixa. Se acumula.
O release (esse texto que abre portas ou as fecha para sempre), é onde muita gente erra feio. O artista chega com o próprio texto pronto, todo cheio de superlativos: “a melhor banda dos últimos tempos lançou uma música incrível.” E o assessor explica, com a paciência de quem já explicou isso umas cem vezes, que elogio de si mesmo não vale nada. Que o que tem peso é o jornalista escrever aquilo. Que o release não é crítica musical, é ferramenta. Informação limpa, data, contexto, o essencial para que outra pessoa possa construir o texto dela com dignidade e sem dúvida nenhuma no que está lendo.
Tem jornalista que faz copy-paste do release inteiro. O assessor experiente sabe disso. E não se ofende, aceita como parte do processo, o que significa, inclusive, que cada palavra precisa estar no lugar certo. Porque pode sair exatamente assim, palavra por palavra, em dez portais diferentes. Uma palavra errada vai aparecer em todos eles. Há cenas que se repetem com uma frequência perturbadora no dia a dia de qualquer assessoria.
O artista que combinou uma estreia exclusiva com um jornalista e mandou a música para os amigos cinco minutos antes do horário combinado. O vocalista que furou entrevista ao vivo em estúdio e achou que um pedido de desculpas resolvia. Quem respondeu prontamente ao jornal grande e ignorou o blog pequeno, sem saber que o cara do blog de hoje pode ser o editor do caderno cultural de amanhã. Quem escolheu lançar o disco na sexta-feira achando que era uma boa ideia, sem considerar que o jornalista já está de cabeça no fim de semana e não vai abrir nada novo.
O assessor está lá para apagar esses incêndios. Mas preferia que o dever de casa tivesse sido feito.Porque a data importa. A foto importa, e foto de selfie no quarto não é foto de artista, por melhor que seja a câmera do celular. O projeto gráfico importa. A embalagem do trabalho diz tanto quanto o trabalho. Às vezes diz primeiro.
Existe também o lado bonito e é esse que sustenta tudo nos momentos em que os nãos se acumulam. Os kits de imprensa (release, portfólio, fotos e rider técnico) criados com pouco dinheiro e muita imaginação. A carta temática enviada junto com o disco, cada detalhe pensado para quem vai receber. As moedas de chocolate que acompanham um lançamento com conceito de tesouro pirata. A semente dentro da embalagem, para plantar junto com a música. Pequenos gestos que custaram pouco e ficaram na memória de quem recebeu muito depois que a música parou de tocar. Assessoria também é isso: criar atmosfera. Dar ao trabalho uma embalagem que faça jus ao que ele é. Apresentar ao mundo não apenas o que foi feito, mas o cuidado com que foi feito.
O acompanhamento, ou aquela cutucada gentil depois do release disparado, é uma arte em si mesma. Há uma linha tênue entre insistir e incomodar, e quem trabalha bem na área aprende a enxergar essa linha antes de cruzá-la. Um não respeitado hoje preserva uma relação que pode gerar um sim daqui a seis meses. Um assessor que liga vinte vezes atrás do mesmo jornalista deixa de receber resposta para sempre e merece.
A construção é lenta. Os jornalistas mudam de veículo, somem de uma editoria e aparecem em outra, às vezes abandonam a imprensa completamente e vão para outro lado. A lista de contatos precisa ser atualizada toda semana. O trabalho de formiguinha nunca para. Depois de tanto esforço invisível, a coisa mais honesta que um assessor pode dizer ao artista que pergunta onde vai sair é: não sei. Não porque o trabalho seja fraco. Mas porque resultado depende de fatores que estão além de qualquer agenda: a pauta do dia, o humor do jornalista, a concorrência daquele lançamento específico, a data escolhida, a qualidade da música, a foto enviada, o mundo lá fora acontecendo mais alto do que qualquer release consegue gritar. O que o assessor garante é o trabalho. A seriedade do processo. A ponte construída com cuidado para que a travessia seja possível, mesmo que, naquele dia, o rio esteja alto demais.
Sem paciência, ninguém faz assessoria. Sem paciência e sem humildade. O trabalho é ingrato quando não aparece, e discreto quando aparece. Quando dá certo, quem brilha é o artista, como deve ser. Mas quem ficou lá, reescrevendo o release, respeitando o silêncio, atualizando a lista, esperando o sim depois de vinte nãos essa pessoa construiu algo que não aparece em nenhuma clipagem.
E se você ainda não entendeu o que isso significa, não se preocupe. Um dia alguém vai passar por cima do seu trabalho achando que é fácil, e nesse dia você vai entender tudo, de uma vez, sem precisar de mais explicação nenhuma. Devagar, sem que ninguém perceba, sem que apareça em lugar nenhum. Do jeito que as coisas que importam de verdade costumam ser construídas: na surdina, entre um não e outro, enquanto todo mundo estava olhando para outro lado.

