Tem uma espécie de dinâmica ou circunstância, no universo musical brasileiro, que torna muito peculiar a trajetória de alguns artistas e músicos. Às vezes, é incompreensível como, apesar do talento e da obra já estabelecida, alguns são conhecidos apenas em suas aldeias. O espanto é ainda mais significativo, quando essas latitudes são o Rio de Janeiro e São Paulo, ainda polos irradiadores do que se torna evidência em nível nacional. Os exemplos são vários e não será necessário citá-los, para não incorrer no erro do excesso ou da falta. Ater-me-ei ao cerne da questão, que, nesse caso, é o violonista Zé Barbeiro, considerado pela crítica especializada um dos modernos compositores de choro da atualidade, além de ser um dos músicos mais influentes no universo do choro, pela sua forma de tocar o violão de sete cordas e pelas características de suas composições.Beleza e Suingue
Feita as devidas apresentações, segui à risca o ensinamento do Dinho Nogueira. Ou seja, ouvi esse delicioso álbum com muita atenção! Descobri facilmente sua beleza, que está prazerosamente distribuída em cada uma das dez faixas. Nele, temos a tradição do choro, portanto, da música brasileira, aliada ao desejo de criar novas possibilidades em composições e arranjos. O álbum também é uma luxuosa homenagem à música do grande Ernesto Nazareth, pois seis faixas do álbum são de sua autoria, além de três de Zé Barbeiro e uma de João Pernambuco. Essa mostra, estabelecida pelo repertorio, evidencia toda modernidade da música de Zé Barbeiro, em comparação com a de Nazareth, por exemplo. Apenas pelas autorias, já dá para perceber a substância desse trabalho. E, claro, abrindo e encerrando o álbum, temos Ernesto Nazareth, como avalista do bom gosto histórico e musical do duo.
Eles abrem com ‘Batuque’ (Ernesto Nazareth), um belo exemplo dos choros do pianista e compositor, que era considerado um dos grandes nomes do maxixe brasileiro, lá nos anos 1920. Por sua vez, o maxixe era avaliado como um subgênero do choro. Zé Barbeiro aproveita para utilizar, nessa faixa, a técnica de abafamento das cordas nos bordões do sete cordas. Na verdade, a faixa de abertura serve como ponte sólida para o samba ‘A Turma’ (Zé Barbeiro), de um suingue arrebatador, apresentando todas as possibilidades de um sete cordas criativo, e fazendo a cama caudalosa para o solo preciso, inclusive em terças, do violão limpíssimo e virtuoso de Dinho Nogueira.
Precisão e Técnica
As faixas seguintes evoluem em improvisos modernos de Zé Barbeiro, como é o caso da faixa 3, ‘Cacique’ (Ernesto Nazareth), passando pelo choro canção ‘Fim de Linha’ (Zé Barbeiro), de melodia belíssima, digna dos cânones do gênero. Daí, chegaremos à grandiosidade da música de João Pernambuco, autor de ‘Luar do Sertão’, mas que aqui é apresentado nos choros ‘Jongo’ e ‘Sons de Carrilhões’, um luxuoso retrato cromático e panorâmico da música brasileira no início do século 20. A bela valsa ‘Turbilhão de Beijos’ (Ernesto Nazareth), cheia de nuances e variações rítmicas, é de uma riqueza enorme, e nos conduz altaneira ao choro ‘Chá de Macaco’ (Zé Barbeiro), com toda contemporaneidade que o sete cordas de Zé Barbeiro impõe à melodia leve e livre, que nos remete ao final do álbum, onde o choro ‘Fon Fon’(Ernesto Nazareth), pelo andamento nervosinho, proporciona um show de precisão e técnica dos dois músicos geniais e afiados. E, assim, estabelecem um soberbo gran finale, à brasileira, na França!
No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!
Mácleim
SERVIÇO
Dinho Nogueira e Zé Barbeiro Ao Vivo em Paris, Dinho Nogueira e Zé Barbeiro
Plataformas digitais: Apple Music, Deezer, YouTube Music
Disco físico: à venda no Facebook / Oficina do Choro
Preço: R$ 20,00

