SOBRE TODOS OS CHÃOS

Renato braz

O encantamento pode e deve ser arrebatador, não precisa necessariamente
ser à conta-gotas, aos pouquinhos, em prestações. Quando ele acontece
assim, tipo amor à primeira vista, não há como fugir de suas consequências.
Pois bem, foi o que aconteceu à primeira audição do álbum ‘Canto Guerreiro –
Levantados do Chão’, comemorativo dos 50 anos de vida do cantor, violonista
e percussionista paulistano Renato Braz. E o encantamento com esse trabalho
tem, no mínimo, dois vieses bem significativos: um, a singeleza dos arranjos e
detalhamentos sutis e transbordantes de musicalidade e talento, que,
paradoxalmente, imprime uma força fatal à simplicidade, que se mostra apenas
ilusória, pois ser simples não é nada fácil. O outro, é a grandeza das canções,
seus significados históricos, a beleza do fazer e ressignificar páginas que não
se perderam com o tempo. E, como ornamento luxuoso, o fato de não se
comemorar 50 anos sem convidados para a festa. Renato Braz escolheu cada
um deles de maneira inconteste, onde, implicitamente, ressoam sentimentos e
afetos.

Esse é o 16º álbum da carreira do Renato Braz, que desde o início, em 1996,
tem se destacado no cenário do cancioneiro brasileiro pela sofisticação
implícita ao seu canto, que nos remete às raízes ibéricas, mouras e judaicas
presentes no Nordeste, e a escolha de repertórios inquestionáveis, sob o ponto
de vista estético e de total independência. Além, claro, da qualidade musical
que lhe possibilita o exercício pleno do seu timbre privilegiado, aliado a uma
técnica impecável! É evidente que em ‘Canto Guerreiro – Levantados do Chão’,
percebe-se um tanto da memória afetiva do artista, e a afirmação de princípios
que extrapolam o universo musical, pela escolha de um repertório aguerrido em
seu discurso, bem como, pela seleção dos convidados, na maioria, autores de
canções que traduzem bem o espírito desse trabalho.

Momento Propício

Esse álbum foi lançado no final de 2017, mas tem um significado de agora, de
pensar o país musicalmente, um alerta para a reflexão sobre as condições a
que fomos submetidos culturalmente. Um delicado e melodioso aceno para que

não nos esqueçamos das liberdades e direitos conquistados ao longo do nosso
processo civilizatório. É um álbum que serve como uma luva às quadras de
agora, às vésperas de uma difícil eleição presidencial, e revitaliza canções de
um tempo pretérito – não tão distante assim –, para a conjuntura atual.

Canções emblemáticas e imortais, como ‘La Quête’ (Joe Derion e Mitch
Leigh) – que teve a versão magnífica do Chico Buarque e Ruy Guerra, para o
musical ‘O Homem de La Mancha’, em 1972 –, ‘Cálice’ (Gilberto Gil e Chico
Buarque), ‘Pesadelo’ (Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro) e ‘O Fim da
História’ (Gilberto Gil), asseveram que nem sempre miolo de pote é água!
Podemos contextualizá-las no ontem, no hoje e, certamente, no amanhã. Por
isso, ‘Canto Guerreiro – Levantados do Chão’, além de belo é reflexivo, como
toda pergunta questionadora em busca de respostas. É o que temos logo na
faixa de abertura do álbum, com a belíssima ‘Levantados do Chão’ (Milton
Nascimento e Chico Buarque), interrogativa por excelência e estrutura literária,
com a dádiva de facultar ao fruidor as respostas possíveis ou não. Porém, não
haverá respostas sem que antes haja um mínimo de imaginação onírica, até
mesmo pelo quê de realismo fantástico em alguns versos: “Como assim?
Levitante colono? / Pasto aéreo? Celeste curral? / Um rebanho nas nuvens?
Mas como? / Boi alado? Alazão sideral?”.

Comemoração de Encontros

Trazer, para sua festa comemorativa, convidados tão especiais, como Milton
Nascimento, Chico Buarque, Gilberto Gil, Miúcha, Alice Passos, Guinga, Dori
Caymmi, Cristóvão Bastos, Eduardo Gudin, Nailor Proveta, Nelson Ayres,
Rodolfo Stroeter, Jamil Joanes, Itamar Assiere, só para citar alguns de uma
lista enorme de agradecimentos, que consta no encarte do álbum, diz muito do
quanto aglutinador e credor de prestígio musical inabalável, tem sido Renato
Braz ao longo dos seus anos de carreira. E, dentro desse encontro macro de
tantos talentos, acontecem encontros-células históricos, como os de Chico
Buarque e Milton Nascimento em duas oportunidades inesquecíveis (Cálice e
Sonho Impossível), numa tríade com Renato Braz, que nos remete a
momentos de pura espiritualidade, do ponto de vista do universo apolíneo.

Em outro momento muito especial, mais um encontro entre três expressões a
serviço da canção, mais uma tríade: Renato Braz, Gilberto Gil e seu violão, em
‘Fim da História’. Aliás, ‘Canto Guerreiro – Levantados do Chão’ oferece essa
possibilidade mágica em algumas outras oportunidades ao longo das 17 faixas.
É o caso de ‘Meu Pai’ (Guinga), onde atuam Renato, Guinga (violão) e Nailor
Proveta (clarinete). Essa dupla genial, que inúmeras vezes contemplaram o
público brasileiro em duo, tiveram na voz de Renato Braz o vértice perfeito para
mais uma tríade de pura musicalidade. E o álbum põe um ponto de leminiscata
nessa festa de encontros, com ‘Blackbird’ (John Lennon e Paul McCartney), em
mais uma performance em três, onde Renato Braz assume o violão e abre
passagem para a futura geração e continuidade do seu DNA. Assim, de pai
para filho, ele apresenta a voz e o canto de Antonio Garfunkel Braz, seu filho,
com o auxílio do piano descontraidamente brincalhão de Itamar Assiere.
A direção musical de ‘Canto Guerreiro – Levantados do Chão’ é assinada por
Mário Gil e Renato Braz, os dois fizeram desse trabalho um dos mais belos
resultados que os encontros musicais poderiam proporcionar! Como sabemos,
esse é um álbum comemorativo dos 50 anos do Renato Braz, mas o público
brasileiro é que foi presenteado com essa preciosa obra, que, definitivamente,
paira sobre todos os chãos!

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!
Mácleim
Plataformas digitais: Spotify, Apple Music, iTunes

Pulo do gato: “Há um ano e meio falei com Mário Gil: ‘Cara, preciso encontrar
o Milton Nascimento, ele é minha maior referência, o cara que mais ouvi na
vida’.” (Renato Braz)