Se o blues surgiu lá no final do século 19, por volta de 1870, a Uptown Blues
Band se fez presente no universo musical da cena pernambucana 127 anos
depois, provavelmente, às margens do Capibaribe. Se não foi assim, poderia
ter sido, pois, se as margens do Mississipi, no sul dos Estados Unidos,
ambientavam um povo que cantava melodias lentas e chorosas, e mostrava a
expressão e o contorno de uma gente desprezada e discriminada, do lado de
baixo do Equador temos um contrapondo, que traduz perfeitamente o clima do
blues apresentado no álbum Uptown Blues Band & Friends.
De acordo com os alfarrábios históricos, a Uptown Blues Band foi pioneira na
cena do blues na terra do frevo! Com o lançamento desse trabalho, em 2018, a
banda comemorou 21 anos de bons e relevantes serviços prestados a esse
gênero e aos seus fiéis apreciadores. Como toda efeméride é também uma
celebração, a rapaziada da Uptown Blues Band não poupou convidados. Aliás,
eu sempre acho que se é para pecar, então, que pequemos por excesso e
jamais, por falta ou omissão. E, assim, são quarenta convidados que vão do A
ao V, nomes como Airto Moreira, passando pelo gaitista de blues Billy Branch,
percorrendo quase todo alfabeto, até chegar em Victor Biglione. Um verdadeiro
universo de linguagens, não apenas do blues, e um admirável recorde digno do
Guinness.
Conexão Alagoana
Porém, a base da Uptown Blues Band, à época, era formada por Adriana
Papaléo (voz), Ed Staudinger (teclados), Emerson Andrade (contrabaixo),
Giovanni Papaléo (bateria) e Thomaz Lera (guitarra e voz); com frequentes
participações dos músicos Jackson Rocha Jr (contrabaixo) e Daniel DaniBoy
Diniz (guitarra). Além deles, o gaitista João Vilela – natural aqui do aquário –,
oficialmente, tornou-se a conexão alagoana com o trabalho da banda
pernambucana, como integrante titular, à época, e legítimo representante da
salobridade lagunar encontrada na musicalidade caeté. Giovanni Papaléo
assina a produção executiva e divide a produção musical com Emerson
Andrade. Certamente, Papaléo foi o bluesmen arregimentador de tantos e tão
significativos nomes, que já tocaram ou participaram de eventos produzidos
pela Upttown e, agora, agregam imenso valor a esse álbum, não apenas pelo
desempenho de suas atuações, mas pela condição de brodagem, que está
implícita até no título Uptown Blues Band & Friends.
Apesar da imensa quantidade de convidados, o álbum tem apenas 12 faixas,
quando seria de se supor um repertório mais extenso, para uma acomodação
mais singular dos diversos convidados. Contudo, isso foi resolvido com a
participação de vários convidados dividindo a mesma faixa, como é o caso da
faixa 12, um remix da faixa 6 ‘Dust My Broom’ (Robert Johnson), na qual atuam
como convidados Edu Gomes (guitarra), Feemarx (sintetizador e drum
machine), Ivan Mariz (guitarra) e João Netto (violão). Ou ainda a faixa 4
‘Arrastapé II’ (Giovanni Papaléo), onde cinco convidados atuam
simultaneamente.
História Per Si
Eles abrem esse congraçamento, também classificado no texto do encarte
como “um atestado de maturidade que a Uptown atingiu”, com a música
‘Uptown Blues’ (Giovanni Papaléo), cuja letra faz uma retrospectiva histórica da
banda, dizendo: “Quando a banda começou o nome era de blues, mas só
tocava rock and rool / Agora eu sei o que é o blues / O blues foi ensinando e a
banda entendeu.” Para tanto, a escolha de um dos segmentos do gênero, o
blues-rock, foi bastante adequada e de cara já pontuam alguns dos
convidados, em espaços generosos para solos do Jefferson Gonçalves (gaita)
e Nuno Mindelis (guitarra), além de Raphael Wressing, num harmmond
característico dos anos 70, encerrando a faixa com um daqueles finais
apoteóticos do blues.
Um dos bons momentos desse álbum é a versão feita para ‘My Babe’, de um
dos nomes mais importantes do blues, o baixista americano Willie Dixon. O
interessante é que essa faixa tem quatro convidados especiais: Billy Branch
(gaita), Cláudio Infante (bateria), Guy King (guitarra) e o mais inusitado deles,
Roberto Menescal (guitarra). Então, o que fazer para acomodar o Menescal,
cuja praia é e sempre será a bossa nova? A solução encontrada foi uma
releitura bossanovística, onde, já na introdução, Menescal faz uma citação de
‘Água de Beber’ (Tom Jobim). Tá, mas, como fica a participação do guitarrista
israelense Gui King? Simples, depois do canto, abriu-se um espaço e deixou-
se a bossa de lado, foram para o blues tradicional, onde a performance do
bluesmen se fez acontecer em um solo politicamente correto. Depois, volta-se
à bossa e temos então uma bossa-blues ou um blues-bossa, ao gosto do
freguês.
Acomodação à Sonoridade
Outro bom momento é a faixa 4 ‘Arrastapé II’ (Giovanni Papaléo), um tema
instrumental, onde pontuam agradáveis surpresas, a começar pelo naipe bem
interessante e generosos compassos para solos inspirados do Derico Sciotti
(sax tenor), Leo Gandelman (sax barítono), Mark Rapp (trompete) e Adilson
Bandeira (clarinete), nessa sequência. A partir daí, já é possível encontrar certo
conforto e acomodação com a sonoridade do disco e, sobretudo, com o
conceito de mixagem ou a falta dele. Há que se levar em consideração,
evidentemente, que muito do que se ouve nesse trabalho, foi gravado em
diversos estúdios da Europa, Estados Unidos e até aqui do Brasil, porque a
tecnologia possibilita, mas soa diferente do que se tivesse sido gravado todo
em um único estúdio, apesar da masterização. Tudo tem um preço a ser pago,
nesse caso, é o estranhamento com a sonoridade técnica desse álbum.
O importante é que a Uptown Blues Band deu mostras de uma farta colheita
do que plantou ao longo do tempo, além de um poder gregário e aglutinador de
amigos, que só a música proporciona sem maiores questionamentos. Como
diz a letra da faixa 10, ‘Azul do Mississipi’ (Thomaz Lera), “Eu mergulhei no
Mississipi e vi que a água não é azul / Ela é turva e lamacenta, mas eu bebi da
fonte do blues.” Essa mesma experiência pode ser relativizada a um mergulho
nas águas do Capibaribe, pois, o que soa em Uptown Blues Band & Friends,
parece ter esse sabor!
No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!
Mácleim (21/05/2026)
PULO DO GATO: “Sempre gostei muito de jazz, blues e rock. No Recife, já
tinha uma cena de jazz e de rock, mas não de blues.” (Giovanni Papaléo)
Ouça:
https://music.youtube.com/search?q=Uptown+Blues+Band+%26+Friends

